“Seu artigo foi selecionado”, “Publicação em 48 horas”, “Submeta agora”. Se você é pesquisador, sua caixa de e-mails provavelmente está inundada por convites insistentes como esses. O que parece um reconhecimento do seu trabalho, no entanto, costuma ser o primeiro contato com um mercado em franca expansão: o dos periódicos predatórios, ou seja, aqueles que não realizam a devida revisão por pares.
O fenômeno foi detalhado no mapeamento inédito que foi publicado no periódico internacional Scientometrics e coincide com a chegada do engenheiro de computação Fábio Manoel França Lobato ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.
Recém-contratado, o professor conta que a pesquisa foi desenvolvida em parceria com a professora Solange Rezende, também do ICMC, além de outros pesquisadores. “A pesquisa coroa uma parceria de longa data com a professora Solange. E ela ajudou bastante na UFOPA e também para o concurso. Nós conduzimos o estudo dentro de uma lógica slow science, amadurecendo a ideia desde 2020, passando por aprovação em Comitê de Ética, curadoria, análise dos dados e a publicação”, afirma o docente Fábio.
Dados da pesquisa revelam que a preocupação com os custos e taxas de publicação é maior entre os doutores enquanto as métricas e a classificação Qualis dos periódicos permanecem elevadas em todos os estágios da carreira acadêmica (Crédito da imagem: Reprodução / Scientometrics)
Publique ou pereça – A ideia de investigar o ecossistema das revistas predatórias nasceu da experiência do professor Fábio. Quando ainda estava no mestrado, na Universidade Federal do Pará (UFOPA), em Santarém, ele acabou, por desconhecimento do problema, publicando em uma dessas revistas predatórias. Anos depois, quando já era professor na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), percebeu, ao assumir a Coordenação de Projetos de Pesquisa, que o problema não era isolado e que muitos colegas estavam caindo na mesma armadilha. “A gente se perguntou: ‘Como está isso no Brasil todo?”, lembra.
A resposta veio sendo construída nos últimos seis anos, época em que o país registrou um aumento vertiginoso nesse tipo de publicação. Para o docente, isso ocorre como resultado da cultura conhecida no meio acadêmico. “Existe uma pressão muito grande para a comunidade publicar, seja para ascender profissionalmente, permitir a defesa de uma tese ou pontuar em concursos”, explica o professor.
Se por um lado há cientistas desavisados, por outro existe quem use o artifício deliberadamente para ‘inflar’ o currículo Lattes. Segundo Fábio, o preço é alto. “Para a ciência, o prejuízo é ter comunicações sem rigor científico ou com falhas metodológicas graves sendo publicadas. Para o pesquisador, o preço é a reputação. A ciência vive de confiabilidade”, ressalta.
Gráfico aponta que o assédio por convites via e-mail (harassing invitations) e o desconhecimento sobre essas fraudes são os principais gatilhos que levam às publicações predatórias (Crédito da imagem: Reprodução / Scientometrics)
O paradoxo dos sêniores – Para desenvolver o diagnóstico, os autores automatizaram o disparo de questionários para secretarias de pós-graduação de todo o país e cruzaram as respostas com os IDs do Lattes dos participantes. Ao analisar os dados das respostas de mais de 3 mil pesquisadores brasileiros, a equipe esbarrou em um resultado contraintuitivo.
Ao contrário do que pensavam os autores, não foram os jovens pesquisadores, em início de carreira, os mais suscetíveis ou preocupados com os custos e impactos dessas publicações. Mas sim os mais sêniores. Uma das hipóteses para esse comportamento, e para a maior vulnerabilidade detectada em instituições federais, reside nos critérios de progressão de carreira no país, que muitas vezes priorizam o volume quantitativo de artigos em detrimento de uma avaliação qualitativa do impacto real da pesquisa.
O estudo aponta ainda para uma assimetria regional e estrutural. Programas de pós-graduação menores e fora dos grandes centros de excelência sofrem com a sobrecarga de trabalho dos docentes, o que sufoca o debate sobre a integridade científica. “Nós não podemos cobrar se não ensinamos. É preciso uma campanha nacional de sensibilização, envolvendo as agências de fomento”, defende o professor do ICMC, que contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).
O artigo apresenta algumas dicas para evitar cair em periódicos predatórios. O primeiro alerta é que esses periódicos costumam reproduzir em seus sites uma suposta política editorial robusta e afirmam estar indexados em diversas bases de dados. No entanto, muitas dessas indexações são inexistentes ou até mesmo falsas. Em alguns casos, elas realmente existem, mas isso não garante a sua credibilidade. Já houve situações, por exemplo, de periódicos predatórios que estavam indexados no Directory of Open Access Journals, o que demonstra que a presença em uma base de indexação, por si só, não é um critério suficiente para atestar a credibilidade do periódico.
Outro indício é a promessa de publicação rápida, geralmente associada à cobrança de uma taxa de processamento do artigo. Essas taxas costumam ser inferiores às praticadas por editoras internacionais. No Brasil, por exemplo, é comum encontrar valores entre R$ 400 e R$ 500.
Por fim, outro comportamento característico é o envio frequente de convites para publicação. Após a divulgação de um artigo, é comum que esses periódicos passem a enviar e-mails insistentes convidando o pesquisador a submeter novos trabalhos ou versões de pesquisas, muitas vezes de forma excessiva e sem qualquer relação com sua área de atuação.
A partir de 24 de julho o professor Fábio Lobato integra oficialmente o quadro docente do ICMC (Crédito da imagem: Arquivo pessoal)
Novos desafios com a inteligência artificial – As respostas dos pesquisadores de todo o Brasil foram recebidas entre 2021 e 2022, ou seja, antes da explosão das ferramentas generativas, como o Chat GPT. Segundo Fábio, o avanço da tecnologia traz uma nova camada de complexidade ao problema. “Ficou muito mais fácil escrever um artigo e simular uma pesquisa. Com a inteligência artificial (IA) generativa, pessoas conseguem fazer ideação e construir textos bem estruturados, mas sem necessariamente ter o domínio do rigor científico, útil para a sociedade”, afirma.
O docente, que construiu sua trajetória acadêmica pesquisando justamente IA e Sistemas de Informação, será integrado ao Laboratório de Inteligência Computacional (LABIC). Fábio pretende usar o peso institucional da USP para transformar as discussões sobre revistas predatórias em um projeto de extensão. “Quero levar essa discussão adiante. Já que o ICMC é um centro de excelência que tem voz, quem sabe a gente consiga fazer esse trabalho de alertar a comunidade acadêmica”, finaliza.