Os familiares de pacientes que dependem de medicamentos da farmácia de alto custo estão enfrentando dificuldades para obtê-los, mesmo com decisão judicial, em São Carlos (SP). Quem não pode esperar precisa pagar do próprio bolso para manter o tratamento.
A educadora Marli Moretti vai à farmácia de alto custo, uma vez por mês, para buscar um medicamento para o filho, diagnosticado com autismo. No entanto, desde agosto do ano passado, ela não consegue a ziprazidona necessária para o tratamento.
“Eles dizem que não encontram mais esse produto. É um medicamento psiquiátrico, ele não pode deixar de tomar porque controla a ansiedade e ajuda no sono, então se ele fica um dia sem tomar, o prejuízo é muito grande”, disse Marli.
O tratamento não pode ser interrompido. Por isso, ela acionou a Justiça para conseguir o medicamento, mas continua enfrentando dificuldades. Sem consegui-lo pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Marli precisa comprar, mensalmente, a caixa com 30 comprimidos por R$ 917,17.
Agora, a educadora espera ser ressarcida pelo governo. “Para receber esse dinheiro de volta demora pelo menos uns dois meses”, afirmou.
Procurada pela EPTV, afiliada da TV Globo, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo (SES-SP) disse que o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Araraquara lamenta o ocorrido com os pacientes mencionados pela reportagem e está checando os casos para o devido atendimento de cada um dos pacientes.
Ainda de acordo com a SES-SP, a Coordenadoria de Assistência Farmacêutica (CAF) informou que opera uma das maiores estruturas logísticas de medicamentos do país, com distribuição mensal superior a 81 toneladas de itens em todo o estado, e que monitora o cenário de abastecimento da assistência farmacêutica.
Mais de 30 remédios em falta
O caso de Marli não é o único. Na entrada da farmácia de alto custo, há uma lista com mais de 30 medicamentos em falta na unidade. De acordo com o documento, a última atualização foi feita em 27 de abril. Entre os itens estão remédios para Parkinson, Alzheimer, glaucoma e doenças autoimunes.
De acordo com a advogada Aline Droppé Bravo, muitos pacientes só conseguem os medicamentos de alto custo por meio da Justiça.
"Se a entrega não ocorre, mesmo diante da determinação judicial, nós executamos essa determinação, hoje chamado cumprimento de sentença, para que a gente faça o resgate da verba pública. O valor é entregue para o paciente, ele faz a compra dessa medicação e depois comprova, através de nota fiscal, a compra no processo judicial", complementou a advogada.
Assim como Marli, a dona de casa Cássia Regina de Camargo Pau também não encontrou o medicamento do filho na farmácia de alto custo. Ela precisou recorrer à Justiça e, mesmo assim, não conseguiu obtê-lo.
"A falta de medicação é constante. Existem remédios que há mais de seis meses eu não recebo", disse a dona de casa.
Enquanto não tem uma resposta da Justiça, Cassia tem comprado o medicamento por conta própria. Todos os meses, ela precisa se desdobrar para arcar com os altos custos do tratamento do filho.
"Não é só medicamento, as fraldas também estão em falta e não foram entregues esse mês. A dieta dele teve atraso de seis meses. [...] Difícil porque só de dieta são uns R$ 2,5 mil. [...] As custas com ele ultrapassam R$ 6 mil por mês", disse Cassia.
Quem depende dos medicamentos espera que a situação seja normalizada o mais rápido possível. Marli ressaltou que a situação é desgastante por ficar vendo o direito do filho sendo violado.
"Não é fácil para quem ganha pouco, que nem eu que não tenho salário, vivo cuidando dele, fica difícil, muito difícil", finalizou Cassia.