Atlética cancela tradicional Baile do Trocado
Festa onde homens se vestem com roupas femininas e as mulheres com roupas masculinas era tradição há mais de 20 anos Tradição
A Atlética do Caaso (Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, cancelou a realização do tradicional Baile do Trocado, que era realizada há mais de 20 anos na cidade. Na festa os homens se vestem com roupas femininas e as mulheres com roupas masculinas.
O presidente da Atlética do Caaso, Caio Sadao Watanabe Tamevava, informou que a festa não representava mais os alunos da USP. "A gente sentiu que não fazia mais sentido, entendeu que era uma festa que não representava mais os alunos."
O Baile do Trocado era realizado tradicionalmente no 1º semestre. Os recursos conseguidos com o evento eram usados para a manutenção das atividades esportivas da Atlética.
Segundo comunicado da organização divulgado na internet, o cancelamento do evento atende a uma reivindicação dos estudantes que consideravam que a temática da festa reforça estereótipos e ofende às mulheres e aos transgêneros.
“Grande parte das roupas escolhidas pelos homens contribuíam para uma extrema sexualização da mulher, assim como as poses escolhidas para tirar fotos, e as frases ditas, que muitas vezes resultavam em uma objetificação da mulher." cita a nota que foi divulgada pelas redes sociais.
"Hoje, sabemos que tais atitudes só reforçaram estereótipos errados sobre a figura feminina, além de ridicularizá-las. Ademais, tal troca de vestimentas era vista como uma piada. Dessa forma, eram naturalizadas atitudes, sentimentos, ações discriminatórias e preconceituosas contra pessoas transgênero”, continua a nota.
A Atlética ainda pede desculpas por ter mantido a festa nos últimos anos.
Nos últimos dois anos de realização, a organização tentou trazer a temática do carnaval para a festa, mudando dia e horário de realização, colocando trio elétrico no lugar de palco e estimulando o uso de qualquer tipo de fantasia.
Segundo a Atlética não haverá uma festa para substituir o Baile do Trocado, mas novos eventos serão criados.
Veja a nota na íntegra:
"Por vários anos realizamos o Baile do Trocado, uma festa de grande alcance e sucesso realizada sempre no primeiro semestre do ano, que buscava integrar os calouros e os veteranos. Durante esse tempo, a festa teve função central para a manutenção do esporte no campus.
Como tradição, a maioria dos homens ia vestido de mulheres, e mulheres usavam vestimentas masculinas.
Grande parte das roupas escolhidas pelos homens contribuíam para uma extrema sexualização da mulher, assim como as poses escolhidas para tirar fotos, e as frases ditas, que muitas vezes resultavam em uma objetificação da mulher. Hoje, sabemos que tais atitudes só reforçaram estereótipos errados sobre a figura feminina, além de ridicularizá-las.
Ademais, tal troca de vestimentas era vista como uma piada. Dessa forma, eram naturalizadas atitudes, sentimentos, ações discriminatórias e preconceituosas contra pessoas transgênero.
A atlética está em constante evolução. Somos pessoas, mudamos, e sentimos a necessidade de sempre refletir sobre nossas atitudes. Entendemos que diversas ações que eram normalizadas pela sociedade no passado, não são mais aceitáveis. Assim, temos a responsabilidade como instituição representativa dos alunos do campus de refletir o sentimento dos estudantes e impedir que tais atitudes continuem.
Reconhecemos que por muito tempo contribuímos para que atitudes machistas e transfóbicas fossem naturalizadas.
Desde 2017, tentamos trazer outras abordagens para o tema da festa, com outros moldes, mas não obtivemos os efeitos que gostaríamos. Por isso, decidimos não realizar mais o Baile do Trocado.
Não queremos mais abrir caminhos para que atitudes como essas sejam consideradas normais.
Gostaríamos de pedir desculpas a todos que um dia se sentiram ofendidos com a festa ou sofreram algum tipo de preconceito que tenha sido naturalizada por nosso evento.
Agradecemos a todos que já curtiram e contribuíram com essa grande festa, e esperamos que continuem a apoiar os eventos da Atlética.
Agradecemos também a todos que nos fizeram refletir e tomar tal decisão. Deixamos nosso contato em aberto para críticas e sugestões, para que possamos sempre caminhar para um campus mais inclusivo e representativo para todos."