Está cada vez mais difícil combater o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. A doença que tinha picos de transmissão apenas no período de chuva e calor, agora tem praticamente transmissão contínua, sem interrupção nos períodos de seca e frio, como acontecia antes.
Para o pesquisador Cláudio José Von Zuben, professor do Departamento do Zoologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro, a cadeia epidemiológica de transmissão da dengue está mudando, porque o mosquito se adaptou ao clima e está conseguindo se reproduzir e sobreviver em condições adversas. "O mosquito somente era encontrado em água limpa, hoje pode ser encontrado em água não tão limpa", explica.
O pesquisador observa que este ano está sendo atípico em termos climáticos, porque não choveu o volume esperado. Mesmo assim, em pleno inverno, os casos de dengue continuam ocorrendo. O calor também contribui para isso, já que o frio intenso não veio e o clima oscila entre baixas e altas temperaturas. Com isso, o mosquito consegue viver mais tempo e picar um maior número de pessoas. "O mosquito não consegue controlar a temperatura do corpo. Quanto mais quente o ambiente, mais rápido seu desenvolvimento e maior o seu tempo de vida", destaca Von Zuben.
O professor ressalta que a adaptação do mosquito ao meio pode produzir linhagens mais fortes do inseto. Ainda não existe uma explicação concreta para o fato. Porém, Von Zuben não descarta a possibilidade do uso excessivo e insistente de inseticidas contribuir para a fortalecimento da espécie, criando gerações mais resistentes. Por isso, a nebulização para diminuir a população adulta do Aedes aegypti tem que ser utilizada com rigoroso controle, tanto para evitar indução à resistência no mosquito como para a preservação de outras espécies que também são afetadas pelo veneno.
O método mais eficiente de combate ao mosquito continua sendo a eliminação dos criadouros. "Se não tiver criadouro, não tem mosquito", ressalta o pesquisador, lembrando que a população é parte importante nas ações de combate, já que em algumas localidades, cerca de 80% dos criadouros estão dentro das residências. Um único foco em uma casa pode comprometer o combate à dengue no bairro todo.
Todo cuidado é pouco, pois existem quatro tipos do vírus da dengue em circulação no Brasil: 1, 2, 3 e 4. Existe ainda um quinto tipo que surgiu em 2007 na Malásia, mas que ainda não chegou ao território nacional. A pessoa que pegou um tipo fica imune apenas em relação a esse sorotipo, podendo contrair os outros três. O pesquisador alerta que na segunda infecção pelo vírus dengue, o sistema imunológico das pessoas pode ter uma reação exacerbada, aumentando as chances de ocorrer hemorragia em órgãos internos, levando ao quadro de dengue hemorrágico, com sintomas mais graves que a dengue clássica.