O Presidente da Sociedade Médica de São Carlos Dr. Francisco Márcio de Carvalho comenta em entrevista algumas questões do Programa "Mais Médicos".
O Governo adotou o programa "Mais Médicos" e os conselhos da classe se posicionaram contra, mesmo sabendo que o Brasil é carente de recursos humanos e materiais no atendimento da saúde pública. Como presidente da Sociedade Médica de São Carlos qual sua avaliação nesse embate?
R: No final do ano passado, em um comunicado conjunto de Cuba e Brasil, houve o anúncio do convênio com o Governo de Cuba para a importação de 6 mil médicos cubanos. Devido à intensa reação da sociedade brasileira, o Ministro da Saúde criou então o programa Mais Médicos, que era para atrair 10 mil médicos de qualquer país para atender no Brasil, inclusive brasileiros. Na verdade o programa foi uma grande cortina de fumaça para o que já estava combinado, acertado e assinado com o governo de Cuba. É verdade, que muitos municípios brasileiros não tem médicos. Mas não é por falta de médicos. Há um bom numerode médicos no Brasil de acordo com dados internacionais. As entidades de classes de médicos têm propostas concretas para interiorizar médicos que foram apresentadas ao governo federal. Trata-se basicamente de uma carreira de Estado, tal como promotores de Justiça, juízes, delegados, onde os salários iniciais da carreira são cinco vezes superiores aos dos médicos e que iniciam sua atividade profissional no interior, garantindo-se por lei ascensão funcional.
Muitos dizem que a posição dos médicos é corporativa. Como deixar claro à população, que tanto reclama dos atendimentos, que não se trata disso?
R: A população brasileira tem toda razão quando reclama do mau atendimento na saúde. Mas a população sabe que o que fala não são médicos mas estrutura, recursos, planejamento, resolubilidade. Que adianta conseguir uma consulta hoje se não há exames, não há medicamentos e as filas de cirurgia, apenas um exemplo, demoram anos? Os médicos e a medicina estão entre outras categorias profissionais mais acreditados pela população.
Os médicos cubanos foram recebidos com vaias nos aeroportos do país. Foi "justo" o acolhimento?
R: Os ânimos estão acirrados. Os médicos brasileiros que trabalham na linha de frente estão cansados de resolver os problemas dos doentes sem nenhum recurso. No Brasil a saúde é direito de todos e dever do Estado, mas esta carga esta somente sobre os médicos e a população. A imprensa em geral tem mostrado a real situação dos hospitais brasileiros que se encontra um caos. Aí, estes médicos que recebem em média 2 mil reais de salário vêem os importados sendo recebidos com honras pelos ministros de Estado e, pior, recebendo cinco vezes mais. A vaia não foi para os médicos mas sim para o Governo e autoridades brasileiras que não conseguem resolver os problemas da saúde no país.
Como o senhor entende a revalidação do diploma e quais os pontos contraditórios desse ato?
R: Em muitos casos os médicos estrangeiros protocolam sua inscrição no Conselho sem a legitimidade dos documentos, faltam fotocópia autenticada em cartório, a tradução do currículo escolar que precisa ser juramentada muitas vezes não está sendo entregue pelos médicos e muitos ainda não fazem o recolhimento da taxa de inscrição no Conselho Regional de Medicina. Por que razão apenas os estrangeiros querem gozar deste privilégio, se nós, brasileiros natos, temos a obrigatoriedade deste recolhimento. Parece que nossa pátria tornou-se mãe gentil de estrangeiros e madrasta de brasileiros natos. Seria o Brasil o país ideal para os estrangeiros?
A presidente Dilma vetou parcialmente o projeto do ato médico. O principal veto
Se referir exatamente a uma das questões mais delicadas do projeto que era o ato privativo do médico. Qual a posição da classe médica a esse respeito?
R: A inexistência de um projeto nacional para ampliação de vagas nas universidades e a falta de financiamento de ensino superior nos últimos anos levaram ao desespero a presidente que além de importar estrangeiros para o exercício da medicina está autorizando profissionais não médicos a atos que antes eram exclusivos de nossa classe. Parece que todo esforço estudantil para conquistar uma vaga em faculdade de medicina é desprezível para o governo Federal, que sequer planejou uma solução justa para os cidadãos brasileiros
Em linhas gerais qual o seu entendimento para que a saúde seja realmente acessível à população com o que há de direito?
R: A necessidade de investimentos em infraestrutura desde a atenção básica de saúde aos procedimentos mais complexos realizados pelo SUS, sendo que a tabela de procedimentos do SUS precisa ser revista. Toda a intenção deste programa Mais Médicos tem finalidade política, considerando-se as manifestações populares ocorridas no mês de junho e a precipitada solução mágica apresentada no dia 08 de julho, mas até agora a população brasileira esta usufruindo apenas das propagandas da televisão e na realidade nada de melhor em sua saúde aconteceu de verdade. Há necessidade de responsabilidade com o discurso com praticas efetivas que respeitem os cidadãos do Brasil.