"O que é o Hospital Escola Municipal e que consequências negativas para a população sãocarlense teriam eventuais mudanças em seu projeto original"

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Muito tem sido dito e escrito acerca do Hospital Escola Municipal. Porém, nota-se que o cidadão sãocarlense, usuário da rede de Saúde municipal, desconhece alguns dados e fatos relevantes acerca desse hospital. Assim, alguns esclarecimentos são necessários para que todos saibam realmente no que ele se transformará em um futuro próximo e quais seriam as consequências de alterações em seu projeto original.

Trata-se de uma obra grandiosa, fruto de uma parceria entre os governos Federal e Municipal. Hoje, apenas o Pronto Atendimento (PA) está em operação, atendendo 306 usuários por dia (198 adultos e 108 crianças) e sendo efetivamente o único PA da cidade que dispõe de pediatras para o atendimento às urgências pelo Sistema Único de Saúde.  Esse PA conta com 20 leitos de internação de retaguarda, ajudando a desafogar a Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, nossa eterna parceira, ao praticar cerca de 40 a 50 internações clínicas mensais.

Como ainda não dispõe de centro cirúrgico e nem de unidade de terapia intensiva (UTI), não temos, neste momento, como atender casos mais graves ou traumas e nem como praticar cirurgias eletivas ou emergenciais. Mas isto também foi pensado para São Carlos dentro desse complexo hospitalar pois, atrás do PA atual estão quase prontas 4 novas unidades: uma UTI de 18 leitos (4 de isolamento crítico); um Centro Cirúrgico com capacidade para realização de 8 grandes cirurgias concomitantes (incluindo transplantes); um Centro de Diagnóstico Laboratorial amplo e completo; e uma Unidade de Anatomia Patológica para exames de biópsia e, até mesmo, verificação de óbitos.

Toda essa estrutura é dimensionada para garantir agilidade e eficiência no diagnóstico e tratamento de casos graves, sejam eles clínicos, cirúrgicos ou traumáticos. É justamente essa unidade que permitirá a transformação do Hospital em um centro de alta complexidade, e, por isso mesmo, altamente resolutivo.

Completando toda essa estrutura estão as Enfermarias: são 4 andares que comportam, ao todo, 96 quartos com 2 leitos cada, além de quartos individuais de isolamento. Isto implica em 200 novos leitos de internação para São Carlos, mais do que dobrando a capacidade de leitos hospitalares hoje existente no Município.

Com a retaguarda da UTI e do Centro Cirúrgico, esses leitos estarão disponíveis para a internação de qualquer problema de Saúde, independentemente de sua gravidade. Há, ainda, um último bloco nesse complexo, a Unidade de Apoio, composta por vestiários, lavanderia e cozinha hospitalares, refeitório dos funcionários, almoxarifado, farmácia e, finalmente, toda a estrutura de manutenção desse complexo. Somando tudo, são quase 30.000 metros quadrados de obras, sendo que cada bloco está intimamente interligado ao outro, condição única para a garantia da qualidade e efetividade da assistência a ser prestada.

Diante desse panorama, podemos nos perguntar: qual município do interior do Estado de São Paulo ou do Brasil conta com uma perspectiva futura tão animadora para a atenção à Saúde de seus cidadãos em relação à oferta de leitos hospitalares? Certamente nenhum outro município está em situação tão privilegiada. Entretanto, tudo isso só é possível com a manutenção do projeto tal como foi pensado e está sendo executado.

Outra questão deve ser levantada: de onde virão os pacientes que ocuparão esses leitos de alta complexidade? Essa resposta não é simples. Exigirá a constituição de um "complexo regulador" responsável pelo encaminhamento daqueles que necessitarem aos hospitais do Município, já com a confirmação diagnóstica da afecção a ser tratada. Assim, apoiamos os planos do Executivo Municipal de trazer para São Carlos um AME, ou seja, um Ambulatório Médico de Especialidades, nos moldes dos já constituídos pelo Governo Estadual, cuja finalidade é a de realizar diagnósticos precisos e com agilidade, encaminhando à rede de Saúde aqueles cidadãos que necessitarem de cuidados adicionais.

Nesse sentido, nada mais lógico que constituir esse AME próximo a um hospital com grande capacidade resolutiva pois, uma vez feito o diagnóstico, o encaminhamento para o leito hospitalar, quando necessário, poderia ser processado com rapidez, garantindo, assim, a humanização e a integralidade do atendimento.

Porém, a instalação do AME nas dependências atuais do Hospital Escola é uma falsa solução, pelos aspectos técnicos que explicamos a seguir. Como já destacado, a instalação de todas as unidades descritas anteriormente só será possível com a manutenção do projeto original do Hospital.

Paredes já estão erguidas e toda a infraestrutura necessária ao funcionamento de um hospital de tamanha complexidade – que não é trivial, envolvendo, por exemplo, uma rede elétrica diferenciada e tubulações para gases, dentre outras especificidades – já está instalada. Caso se opte pela instalação do AME nas dependências atuais do Hospital, não só o Hospital Escola perderá a capacidade de atendimento de alta complexidade, mas todos os recursos já investidos nessa estrutura serão perdidos.

Essa decisão, que por si só já não nos parece prudente, poderia ser, teoricamente, contornada com a transferência do Centro Cirúrgico, da UTI, do Centro de Anatomia Patológica, da Unidade de Anatomia Patológica e de um centro de distribuição de materiais para parte do espaço destinado às enfermarias. No entanto, neste caso, além do desperdício dos recursos já investidos, teríamos a perda de cerca de 78 leitos.

Ou seja, de um lado, o AME aumentaria a demanda para o Hospital, já que agiliza diagnósticos e encaminhamentos, mas não é resolutivo, ou seja, precisa dos hospitais para encaminhamento dos casos mais complexos. E, de outro lado, teríamos a perda de leitos!

Assim, por todas as razões apresentadas, defendemos que a Prefeitura Municipal construa o AME em área próxima à do Hospital Escola Municipal, aliando a grande capacidade diagnóstica do AME à grande capacidade resolutiva do Hospital, ambos beneficiando essencialmente os cidadãos sãocarlenses. De outro lado, destacamos que qualquer outra solução, como já exposto, acarretará perdas significativas.

Prof. Dr. Sérgio Luiz Brasileiro Lopes
Diretor Técnico do Hospital Escola Municipal e Professor Adjunto do Departamento de Medicina da UFSCar


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